TRÂNSITO & TRANSPORTE: SOLUÇÕES PARA A MELHORIA

A importância da priorização do transporte coletivo

Problemas de trânsito, como congestionamentos e acidentes, fazem Goiânia viver hoje uma situação comum a tantas outras grandes cidades. São questões que afetam diretamente toda a população: pedestres, ciclistas, motoristas particulares, de ônibus e usuários do transporte coletivo. O ponto principal para a solução de parte destes problemas é a criação de uma política pública para o trânsito, que inclua como item essencial a priorização do transporte coletivo. As opiniões vêm do engenheiro civil Eduardo Cândido Coelho, especialista em planejamento de transporte urbano (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG).

Além dos benefícios diretos ao sistema de transporte urbano, a priorização do transporte coletivo, com a construção de corredores específicos destinados ao tráfego dos ônibus (sejam segregados ou semi-exclusivos), torna-se também uma solução para o trânsito cada vez mais tumultuado das grandes cidades. “É preciso organizar melhor o trânsito olhando para o transporte urbano. Essa é a saída”, explica o especialista que trabalha na Tectran (Técnicos em Transporte), empresa mineira que desenvolveu vários projetos de trânsito e transporte coletivo para prefeituras de todo Brasil.

Eduardo Coelho, que já trabalhou em projetos na capital goiana e conhece sua realidade de trânsito, disse que as soluções para o transporte urbano passam por modificações cruciais no sistema de tráfego. É preciso hierarquização e definição de quais vias são prioritárias para que trânsito e transporte coletivo possam fluir melhor, comenta.

As propostas de mudanças feitas por ele passam, em primeiro lugar, pela definição de eixos de trânsito e transporte coletivo. “É preciso pegar algumas vias e dizer: essas são para fluir o tráfego. E hierarquizar, engessá-las mesmo, explica. Algumas medidas simples para isso são acabar com os estacionamentos ao longo dessas vias e eliminar as conversões à esquerda, que atrapalham o tráfego, pois causa tumultos e acidentes, principalmente colisões”, acrescenta.

Segurança nas estradas

Goiânia paga hoje o preço que as cidades grandes pagam mundo afora com a tendência inevitável de concentração urbana. Mais gente nas cidades significa mais carros nas ruas e mais necessidade de deslocamentos. No geral, a individualização do transporte acabou se tornando também uma tendência. A lógica de sair diretamente de casa, ir para onde quiser e voltar quando quiser, sem ter que dividir um veículo com dezenas de outros usuários, foi ganhando mais força. Segundo Eduardo Coelho, essa situação não é específica de Goiânia. “É uma tendência mundial”, reconhece.

No entanto, ele afirma que várias cidades estão tentando mudar esse quadro. “Elas já enfrentam essa questão de frente, criando campanhas específicas para o esclarecimento desta questão com um retorno muito positivo”, diz. Ele cita como exemplos o rodízio de veículos em São Paulo, onde placas de veículos particulares com final par e ímpar têm dias marcados para circular, e a instituição de pedágio em certas áreas de Londres. Nos dois casos, o transporte coletivo não tem limitação de circulação por ser direcionado para o público. “Os exemplos são de priorização do transporte público e hoje são encarados como uma conquista das respectivas cidades” esclarece.

Na verdade, há no mundo inteiro a constatação, entre os especialistas de trânsito e transporte e de gestores públicos, que não é possível às cidades suportar o crescimento desenfreado do trânsito. “Chega um momento que é preciso parar”, diz Eduardo Coelho. A tendência, então, é investir no transporte coletivo, priorizá-lo, já que ele pode transportar mais gente com menos veículos nas ruas. “Isso é uma coisa lógica. É muito simples. É preciso dar prioridade para aquele veículo que transporta mais gente, que beneficia um número maior de pessoas”, entende.

Aliás, Eduardo Coelho alerta que a questão central no planejamento de trânsito deve ser o lado humano. “São as pessoas que fazem as cidades viverem e não os carros” expõe. Ele ressalta que a sua proposta de hierarquização de alguns eixos de trânsito está relacionada diretamente com benefícios para usuários (sejam motoristas ou passageiros do transporte urbano). “Porque se o trânsito não flui a cidade se torna menos eficiente e isso vai incomodar muita gente”, lembra.

O planejamento do trânsito é fundamental para evitar sérios problemas urbanos em um futuro não muito distante. “Se o trânsito não tem uma boa fluidez algumas áreas da cidade vão começar a se degradar, mesmo economicamente. Afinal, se elas não têm um acesso fácil começarão a ser evitadas. Então, é preciso um planejamento sério a respeito do assunto”, entende.

Prejuízo

Na prática, o trânsito já vem provocando problemas ao transporte coletivo. Reportagem publicada na edição do dia 23 de setembro de 2007 (Andar de ônibus fica mais demorado) mostrou que o tempo de viagem no transporte urbano ficou cerca de 20% maior nos últimos anos. Dados do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (Setransp) confirmam isso. Há seis anos a média de viagens do sistema de transporte era de 10 diárias. Hoje, a média não passa de sete viagens por dia.

E isso ocorreu justamente quando houve um aumento do número de ônibus nas ruas. Segundo o Setransp, em março de 1999 a frota das empresas somava 977 ônibus e, em março de 2007, o número passou para 1.289, um aumento de 31,9%. No sentido inverso, a quantidade de passageiros transportados por mês caiu de 18.295.046 (99), para 17.692.688 (2007).

A construção de novos corredores projetados como o Norte-Sul, e os já existentes passaram a ser prioridades para a melhoria da qualidade do transporte coletivo. Com isso o poder público demonstra estar no caminho de encontrar soluções eficientes para o transporte de passageiros e para um trânsito mais ágil e seguro.