


Belo Horizonte dá mais uma pedalada para entrar na rota de cidades como Paris, Amsterdã e até a vizinha Bogotá, onde se privilegia o transporte de bicicleta na busca por um trânsito menos caótico e melhor qualidade de vida. Duas empresas foram habilitadas pela BHTrans para elaborar os projetos executivos das ciclovias previstas para até o fim deste ano – Tectran Técnicos em Transporte e Vertran Gerenciamento e Controle de Tráfego. As propostas comerciais da licitação devem ser divulgadas segunda-feira.
Seis novas rotas (ver mapa) vão ser criadas, num total de cerca de 20 quilômetros. Hoje, a capital conta apenas com essa mesma quilometragem de pistas exclusivas para as magrelas. E, ainda segundo RicardoLott, coordenador-executivo do Programa de Incentivo ao Uso da Bicicleta na cidade (Pedala BH), da BHTrans, o estado dessas vias é precário ou elas não estão integradas a nenhum outro meio de transporte. “Por isso, os roteiros que vamos contratar interligarão alguns cicloviários prontos, sinalizando-os e incorporando a infraestrutura de segurança necessária. A intenção é levar o ciclista sempre a um ponto de ônibus ou de metrô”, afirma.
As empresas vão apresentar projetos geométricos, de sinalização e de instalação dos dispositivos auxiliares de segurança para quem pedala. A BHTrans firmou convênio como Ministério das Cidades e obteve R$ 320 mil para a licitação e o município vai entrar com R$ 80 mil. O Pedala BH foi criadoem2005, mas só agora consegue concretizar parte das iniciativas. “Nos anos anteriores, prospectamos recursos e fizemos planejamentos. Agora, o momento político é favorável à execução dos planos”, justifica.
Apesar de BH ter relevo bastante acidentado – somente15%do espaço urbano apresenta declividades satisfatórias para a prática do ciclismo –, as áreas baixas se distribuem por toda a cidade. “Depois de implantada toda a rede, uma meta de longo prazo, a expectativa é de que possamos percorrer todas as regiões de bicicleta”, diz. Para tanto, são necessários pelo menos 300 quilômetros de ciclovias. Além de depender de investimentos próprios, Lott espera criar outras rotas com apoio da prefeitura, à medida que forem feitas novas vias ou reformadas as já existentes. “A expectativa é de que elas sejam projetadas ou revitalizadas já com as pistas exclusivas”, informa. No entanto, só a criação das ciclovias não atende as necessidades de quem hoje usa a magrela como meio de transporte. Quem já está nas ruas sofre com a falta de pontos apropriados para estacionar.
Para o coordenador, a implantação dos bicicletários é prioridade e, apesar de não haver verbas específicas, o objetivo é incentivar equipamentos públicos e privados, como centros comerciais, supermercados, teatros, estádios e complexos de lazer a criá-los. Andréa Marcellini, de 28 anos, publicitária e criadora dos projetos Hora do Blush e LeVelo – grupos de ciclistas que fazem passeios pela cidade, participam de palestras e cursos –, reclama das vezes que tenta sair de casa para pagar uma conta e não pode trancar a bicicleta na porta das agências bancárias. “A ciclovia é aponta de um grande processo de conscientização que precisa ser feito com quem pedala e com os motoristas”, afirma.
Ela aposta na divulgação dos bens que o ciclismo é capaz de promover, tanto para a saúde quanto para a cidade, como forma de angariar novos adeptos e na educação dos motoristas para conviverem pacificamente com as bicicletas no trânsito. “Os próprios ciclistas também precisam saber as regras de circulação, andar somente pela direita e conquistar seu espaço”, pondera. Ela chama a atenção para a importância desse processo, para não se criar estruturas sem que haja uma demanda real. “Hoje, muito pouca gente usa a bicicleta como meio de locomoção”, diz
Na capital, a população se desloca, diariamente, em 4milhões de viagens – a pé, de ônibus, metrô, carro, bicicleta e por meios de tração animal. Os ciclistas são apenas 0,6% desse grupo, o correspondente a 25 mil pessoas. A média nas cidades com mais de 1milhão de habitantes é de 0,9% dos deslocamentos feitos em bicicletas e, nacionalmente, o percentual sobe para 2,8%. Mesmo estando abaixo das duas porcentagens, BH não conta com infra-estrutura mínima para atender os ciclistas.